Caniclube

Escola de Treino Canino


 

 

Entrevista com Samir A. Laila

O site do Caniclube teve o prazer de entrevistar Samir A. Laila, juíz Internacional de Agility e condutor de nível mundial . Com um currículo no Agility recheado de êxitos, dos quais sobressaem o campeonato Nacional conquistado na época 2002/2003 com Billy Boy e o título mundial por equipas em 2002, também com Billy Boy, em representação da selecção Brasileira. De salientar também o histórico 6º lugar na categoria individual com o Border Collie Magic (na foto), alcançado no mundial 2003 em França e em representação de Portugal. 

Embora amado por uns e odiado por outros, ninguém poderá negar a forte contribuição que Samir A. Laila veio dar à evolução do Agility em Portugal, incutindo novas técnicas de treino e fundamentalmente veio obrigar a que todos os condutores trabalhem cada vez mais pois só assim poderão competir com o Samir. 

 

 

 

Caniclube:  Como e quando foi o teu primeiro contacto com o Agility ?  

Samir : Foi em 1999. Mais ou menos no meio do ano em junho eu estava na casa do Hélio (criador do Billy Boy), e o Tamaio apareceu lá para escolher um cachorro de uma ninhada de Border Collie que o Hélio tinha. Ele separou dois cães, e eu perguntei ao Hélio se ele me vendia o outro cão que o Tamaio tinha escolhido, o Hélio disse que sim e eu comprei o meu 1º Border. A partir daí comecei a treinar junto com o Tamaio esses dois cães. O curioso é que eu tinha o irmão do Billy Boy, que é o cão que o Tamaio compete hoje nos mundiais e o Tamaio tinha o Billy Boy, e em certa altura o Tamaio me propôs uma troca dos cães, pois ele achava que o meu cão estava mais adiantado e poderia ser melhor para ele. Eu troquei principalmente pelo reconhecimento que tinha por tudo que ele estava fazendo por mim, me ajudando muito a treinar e na escolha dos cachorros também. Os cães tinham 5 meses nessa altura. Brincadeiras à parte, muita gente fala que ele se arrepende disso até hoje.

Minha primeira prova oficial de agility foi em Novembro de 1999 com uma Pastora Alemã chamada Agatha que foi treinada pelo Tamaio, e a partir daí nunca mais parei.  

 

 

Caniclube : Desde o teu primeiro contacto com o Agility até à actualidade, o nível no Brasil evolui bastante. A que se deve essa extraordinária evolução ?  

Samir :Em 1999 quando tive o meu 1º contato com o agility o nível do Brasil era muito diferente do nível de hoje. Muita gente  no Brasil fala que essa época era a da “IDADE DA PEDRA”. Quando eu e o Tamaio compramos esses dois Borders que eram o Billy Boy e o Billy 1, a nossa intenção era a de mostrar para todos que precisávamos muito evoluir na parte técnica. Conseguimos fazer um trabalho diferenciado de tudo o que se passava no agility do Brasil naquela época. O Eugénio também tinha um irmão desses cães que juntamente com os nossos cães eram os cães que faziam a diferença no agility brasileiro daquela época, isso em Agosto de 2000. A partir daí o nível evoluiu mais ainda, com mais condutores tendo novos cães e treinando com novas técnicas.

Duas pessoas foram muito importantes para essa grande evolução também, o Dan e o Hélio. O Dan trabalhava na parte de marketing da pedigree na época e era um apaixonado pelo agility. Isso fez com que ele apostasse em treinadores profissionais de cães para fazer agility e deu certo, claro que nem todos foram bem , mas uma grande parte foi, o Tamaio, o Eugénio, o Zezinho , eu e muitos outros foram pessoas que o Dan e a pedigree acreditaram, investiram e acabaram dando certo. O Hélio teve a sua importância como criador da raça Border Collie e como grande incentivador. Ele trazia muita gente para o  agility também. Como criador, criou muitos bons cães que se destacam em pista no Brasil até hoje. Os três cães da equipe campeã mundial do Brasil de 2002 eram de sua criação.

Hoje temos mais criadores bons no Brasil também, mas o Hélio continua tendo muitos bons cães.

 

 

 

Caniclube : De entre todos os monitores que ministraram cursos no Brasil, qual foi aquele que te mereceu maior relevo pela qualidade do curso ?  

Samir :Eu participei de alguns seminários de agility no Brasil, mas os que mais me marcaram foram os cursos de: Stwart e Path Mah um casal de americanos, o Stwart fez parte da seleção americana em 1999, da holandesa Relinde Peshier e do francês Patrick Servais, esse meu grande ídolo no agility até hoje. Com ele aprendi muita coisa nova , principalmente em relação à trajetória dos cães no percurso e as zonas de contato.

Não posso deixar de mencionar aqui o nome do meu amigo  Flávio Tamaio, com que tive o privilégio de começar no agility. Ele é um craque do agility brasileiro até hoje, e muita coisa que eu sei aprendi com ele também.

 

 

 

Caniclube : Como classificas actualmente o nível do Agility em Portugal ?  

Samir :Acho que o nível melhorou e vem melhorando, visto o resultado dos dois últimos mundiais na Alemanha em 2002 e na França em 2003. Na Alemanha em 2002, Portugal conseguiu um excelente 2º lugar na prova de agility por equipes, e depois acabou tendo azar no jumping, (pois lutaram pelo lugar mais alto do pódio) e infelizmente não conseguiram se manter no pódio na classificação final , mas no meu ponto de vista foi um excelente resultado e Portugal foi visto com outros olhos pelos outros países presentes no mundial.

Na França em 2003, Portugal voltou a conseguir uma óptima classificação na prova por equipes , dessa vez no jumping. Um 4º lugar ficando à frente de potencias do agility mundial como os Estados Unidos e a Bélgica.  Novamente não teve êxito na classificação final, mas tentaram e batalharam para conseguir um pódio, infelizmente não conseguiram. Na categoria individual conseguimos um 6º lugar no geral com a dupla Samir e Magic. Para mim foi um excelente resultado, pois trabalhei muito para isso, claro que o meu sonho era conseguir um lugar no pódio, mas não foi dessa vez, quem sabe um dia.

Então acho que o nível vem melhorando e hoje se tivesse que classificar com uma nota de 0 a 10, teríamos 6.

 

 

 

Caniclube : Como classificas  o Agility em Portugal ao nível do dirigismo ?  

Samir :   A única coisa que posso dizer em relação a essa pergunta é o seguinte: “MUITO CACIQUE PARA POUCOS ÍNDIOS “.     

 

 

 

Caniclube : Qual a tua analise ao desempenho dos conjuntos portugueses no  Mundial 2003 em Lievin ? 

Samir : No geral acho que tivemos uma boa participação. Na categoria Midi os nossos dois condutores apresentaram dois cães com qualidade que infelizmente não conseguiram bons resultados.  Só quem já esteve num mundial sabe o que é a pressão de competir sobre os olhares de milhares de pessoas e mostrar um bom trabalho, e nem sempre isso acontece. Deixo aqui os meus parabéns às duplas Domingos com Herói e Gonçalo com Spot e que tenham mais sorte das próximas vezes.

Na categoria standard, acho que tivemos boas actuações também, o Paulo tentou tirar tudo da sua Boxer Pepa, o Luís e o Pedro Rocha ambos fizeram bons jumpings com as suas Malinois, infelizmente com uma falta. O Pedro da Nyli (Border Collie) fez um bom jumping zerado, infelizmente não tiveram tanto sucesso no agility, e eu com os meus dois cães acho que tive uma boa apresentação também. Com o Magic fiquei muito contente com o resultado final no individual, em 6º lugar a menos de 1,5 s do 2º , e menos de 1 s do 3º no geral. Com o Billy Boy mais uma vez não consegui bons resultados, infelizmente uma falta no jumping individual, uma eliminação na prova agility por equipes e depois não consegui competir com ele no agility individual pela torção no tornozelo que tive competindo durante as provas.

Não podemos deixar de destacar aqui todo o apoio que tivemos do seleccionador nacional , Sr. Luís Narciso que no meu modo de ver fez a melhor selecção que Portugal podia levar e pelo grande apoio dado a todas as duplas, antes e durante o mundial.

Outra pessoa muito importante foi o Sr. Artur Pires que deu todo apoio logístico para que a nossa viagem se realizasse e também a todas as duplas durante o mundial.

 

   

 

Caniclube : Quem foram para ti os grandes destaques deste Mundial ?  

Samir : Os campeões mundiais nas categorias midi e standard, Sylvia Trkman (Eslovenia)  e Mikko ( Finlândia) e a Sylvia Vaanholt da Alemanha, ela tem um excelente Border que em breve aparecerá no pódio nos próximos mundiais.

Mas o grande show na minha opinião foi da Sylvia Trkman da Eslovénia vencendo as duas provas agility e jumping e colocando quase 7s de diferença no 2º colocado.

   

 

Caniclube : Como viste a actuação dos juízes do Mundial ?  

Samir : O Sr. Emiel bem, boas actuações embora os percursos não fossem os meus favoritos, gosto de percursos que priorizem a velocidade e hoje em dia muitos priorizam muito a técnica, que também é importante na minha opinião mas não em demasia.

A Sra. Maryanic, razoável actuação e alguns percursos muito complicados, como aquele agility por equipes na classe standard onde tivemos dezenas de duplas desclassificadas.

 

 

Caniclube : Falando agora das 2 raças STD com mais aptidões para o Agility- Border Collie e Pastor Belga, quais as principais diferenças entre ambas relativamente ao Agility ?  

Samir : Eu nunca trabalhei com um Pastor Belga, e já trabalhei com vários Borders, acho que na maneira de aprender e de assimilar as ordens as duas raças devem ser muito parecidas. Dizem que o Pastor Belga tem um carácter especial, mas na minha opinião o Border também tem. A principal diferença na minha opinião está na maneira de como os Pastores Belgas saltam e de como os Borders fazem os contatos. Os Belgas levam vantagem nos saltos e os Borders nos contatos.

 

   

 

Caniclube : Quantos cães estás actualmente a treinar ? E quais os teus objectivos com cada um deles ?  

Samir : Hoje tenho competindo em alta competição o Magic e o Billy Boy, e o meu objectivo com eles é chegar sempre ao mundial e conseguir o melhor resultado possível com eles dentro do limite de cada um. Em treinamento tenho a Chanel filha do Billy Boy e o Billy Brown filho do Magic. A Chanel está com 1 ano e 4 meses e o Billy Brown fez 1 ano em Janeiro. Acho que desses dois cães ficarei só com um deles que será muito provavelmente o Billy Brown. Ele lembra muito o pai quando esta fazendo agility e vem me agradando muito, acho que posso a vir ter grandes alegrias com ele no futuro. A Chanel é uma cachorra muito explosiva, lembra o Billy Boy trabalhando, não venho treinando ela regularmente e com isso tem alguns problemas no trabalho realizado, não que seja difícil de corrigir, mas como já disse necessita trabalho e como venho dando prioridade ao trabalho do Billy Brown acaba acontecendo essas coisas. Ambos os cães trabalham em percursos de jumping e ainda não fazem nenhuma zona de contato, irei começar com os contatos esse mês.  

 

 

Caniclube: Em termos de metodologia de treino como esquematizas um treino ?  

Samir : Procuro trabalhar muito a motivação enquanto o cão é cachorro, depois faço exercícios onde priorizo a velocidade quando o cachorro está entre os 4 e 8 meses e a partir daí começo a trabalhar os saltos separadamente. Entre os 11 e 12 meses inicio o slalom e a partir dos 12 meses os contatos.

   

 

 

Caniclube: Quantos treinos fazes por semana ? E qual a duração média de cada sessão ?  

Samir : Com os cães já prontos 3 vezes por semana uns 20 minutos em média , nunca seguidos. Com os cães em fase de formação praticamente todos os dias uns 10 minutos por dia.

 

 

Caniclube : Na qualidade de juíz quais são os teus critérios técnicos quando elaboras uma pista ?  

Samir : Procuro priorizar sempre a velocidade com alguns pontos de controle no percurso. Acho muito bonito ver um cão fluindo bem em um percurso.

   

   

Caniclube : Qual a tua opinião sobre o novo sistema de classificação do Camp. Nacional que vai entrar em funcionamento em 2004/2005 ?  

Acho que tem tudo para ser um grande campeonato!! Um número menor de provas irá fazer com que as provas ganhem mais importância e sendo assim terão um maior número de concorrentes. Os condutores terão que se preparar para lidar muito bem com a pressão, pois serão 12 provas onde contarão as 10 melhores . Para quem quiser estar bem classificado no ranking, saber lidar com a pressão para conseguir bons resultados nessas provas será fundamental.

Acho que será um grande passo para uma evolução maior ainda do agility em Portugal.